Na ilha de Maiorca, a 50 minutos de carro de Palma, a capital, e à beira da baía de Alcúdia, encontra-se o Museu Sa Bassa Blanca (Msbb), que, mais do que um museu convencional como os das cidades, é um campus que aspira a ser um espaço de contemplação artística e estética espacial, tal como acontece noutras instituições que nos inspiram: o Museu Louisiana de Arte Moderna em Humlebæk (Dinamarca); o MONA, o Museu do Antigo e do Novo, em Hobart (Tasmânia); ou a Casa Museu Benesse, em Naoshima (Japão).
Em Maiorca, existem outros museus de relevo, destacando-se a Fundação Pilar e Joan Miró, nos arredores de Palma; o Es Baluard, integrado na cidade, com uma interessante coleção de arte contemporânea espanhola e exposições temporárias; ou o Museu Juan March, no centro de Palma, com uma coleção única de arte espanhola do pós-guerra.
O Msbb nasce a partir daquela que foi a casa de família dos artistas Ben Jakober e Yannick Vu (viúva de Domenico Gnoli), construída em 1978 pelo lendário arquiteto Hassan Fathy. Ben e Yannick transformaram-na em fundação e museu no ano de 1993. O núcleo original expandiu-se nos anos seguintes até se tornar num complexo com cerca de 1.500 m², inserido numa propriedade de 160.000 m², onde já não é permitida qualquer construção, estando situada numa zona especialmente protegida, chamada ANEI, entre as montanhas e o mar. Desde então, o museu tem sido sistematicamente melhorado, num esforço contínuo para adquirir peças de arte que complementem as coleções.
O museu NÃO se centra nas figuras dos seus fundadores, mas sim naquilo que os seus olhos e corações quiseram partilhar e preservar.
O Msbb é um museu único, talvez eclético, mas coerente, que compreende:
- A coleção Nins, alojada num espaço subterrâneo, um antigo reservatório de água, e com o objetivo de intensificar a experiência e criar as melhores condições de visualização, apenas cerca de 30% da coleção é exibida, composta por 160 retratos de crianças, na sua maioria pertencentes à realeza e nobreza europeias, pintados por mestres da pintura entre os séculos XVI e o início do século XIX.
- Um parque de esculturas com 50 peças, incluindo representações monumentais de animais em granito ou bronze, cada um remetendo para uma cultura específica, bem como uma gigantesca elipse megalítica. Os arquitetos consideram esta área como “o quarto espaço”, onde o público pode passear e interagir com as obras.
- SOKRATES, um espaço expositivo acrescentado posteriormente, semelhante a uma cripta, que presta homenagem ao Museu Sir John Soane e é guiado pelas ideias de Jean-Hubert Martin e inspirado por Axel Vervoordt. Aqui, perante o pano de fundo de uma imensa cortina de cristal Swarovski, propõe-se um diálogo entre civilizações e continentes: Nepal, África, Papua-Nova Guiné e Austrália cruzam-se com mestres modernos como Miquel Barceló, Rebecca Horn, Domenico Gnoli e Louise Bourgeois, entre outros. Como toque final, há uma sala dedicada a James Turrell. Esta wunderkammer não pretende, necessariamente, ensinar história da arte, mas sim proporcionar uma experiência visual e sensorial que enriqueça pessoalmente o visitante.
- O icónico edifício Hassan Fathy, cujos espaços estão dedicados à exposição de arte, misturando deliberadamente perspetivas e épocas. Aqui, o diálogo entre arte africana contemporânea e arte ocidental inclui obras de artistas como Brice Marden, Domenico Gnoli, Henri Michaux e Vu Cao Dam. A mistura de obras de diferentes períodos foi concebida com uma intenção provocadora, dando espaço a artistas historicamente ignorados ou esquecidos. Como elemento surpreendente, o antigo quarto da casa tem um teto inteiramente coberto por madeira policromada do século XV: trata-se de um artesonado mudéjar proveniente de Tarazona, em Aragão, Espanha.
- Nos últimos anos, foram consolidadas importantes coleções de arte aborígene, que dialogam com artistas de Essaouira.
Uma curta caminhada pela montanha leva-nos ao Observatório, um miradouro com vistas deslumbrantes sobre a baía de Alcúdia, onde se encontram uma Câmara Escura e uma instalação de espelhos chamada Aquário.
- Os nossos espaços tinham certas restrições rígidas, mas, apesar disso, esforçámo-nos por criar “um lar acolhedor”, com simplicidade e integridade, para que a arte possa ser desfrutada, tal como Louis Kahn idealizava um museu: não esmagadoramente monumental, mas com uma escala adequada às coleções que abriga.
Tudo isto tem sido um processo contínuo, sem um planeamento rígido desde o início, e desde a iniciativa de Knud Jensen, em Louisiana, já não é um tabu que um museu reflita a personalidade e as ideias dos seus fundadores. A fusão entre arte antiga e contemporânea, elementos arqueológicos e obras modernas, numa apresentação deliberadamente eclética, ecoa as palavras de Picasso: “Na arte, não há passado nem futuro”.
Visitar o nosso museu não exige um conhecimento aprofundado da cultura ou da história, e é precisamente por isso que um artefacto de Papua-Nova Guiné pode partilhar o mesmo espaço estético que uma obra de Louise Bourgeois, permitindo não apenas um único ponto de referência, mas múltiplos.
– Ben Jakober